Há sempre dois caminhos e duas decisões,
diz a Vida com o seu olhar arrogante e displicente.
Há sempre uma meta e uma crença,
diz a Esperança com o seu olhar meigo e carinhoso.
Há sempre o amor,
diz a Paixão com o seu olhar infantil e sonhador.
Saturday, June 20, 2009
Temporalidade(s)
O tempo é aquilo que fazemos dele. O tempo é aquilo que procuramos retirar, aquilo que procuramos encontrar. Sem tempo, não existimos. Sem nós, não existe tempo. Névoas confusas sobrevoam a mente daqueles que se deixam enganar. É preciso querer para realmente ver mas, por vezes, é inevitável ferir os olhos.
O tempo é aquilo que queremos dele. O tempo é aquilo que desejamos descobrir, aquilo que desejamos solidificar. Sem tempo, não existimos. Sem nós, não existe tempo. Sombra difusas acompanham o corpo daqueles que se deixam iludir. É preciso acreditar para realmente sentir mas, por vezes, é inevitável ferir a pele.
O tempo é aquilo que fazemos dele.
Sem tempo, não existimos.
Sem nós, não existe tempo.
O tempo é aquilo que queremos dele. O tempo é aquilo que desejamos descobrir, aquilo que desejamos solidificar. Sem tempo, não existimos. Sem nós, não existe tempo. Sombra difusas acompanham o corpo daqueles que se deixam iludir. É preciso acreditar para realmente sentir mas, por vezes, é inevitável ferir a pele.
O tempo é aquilo que fazemos dele.
Sem tempo, não existimos.
Sem nós, não existe tempo.
Histórias de embalar
Conta-me uma história para adormecer, meu amor. Faz-me acreditar que posso tocar nas estrelas e iluminar-me, como acreditava quando era pequenina.
Conta-me uma história para adormecer, meu querido. Faz-me fantasiar com viagens à lua nos foguetes da paixão sem bilhetes de regresso.
Conta-me uma história para adormecer, minha paixão. Faz-me recordar os momentos em que a felicidade mais não é que um estado de ignorância sábia.
Conta-me uma história para adormecer, meu anjo. Embala-me nos teus braços e deixa-me ficar.
Conta-me uma história para adormecer, meu querido. Faz-me fantasiar com viagens à lua nos foguetes da paixão sem bilhetes de regresso.
Conta-me uma história para adormecer, minha paixão. Faz-me recordar os momentos em que a felicidade mais não é que um estado de ignorância sábia.
Conta-me uma história para adormecer, meu anjo. Embala-me nos teus braços e deixa-me ficar.
Efemeridade
- Vamos percorrer os caminhos do infinito, sem medo da eternidade?
- Não sei. Temos de pensar já sobre isso?
- Responde-me.
- Não, vamos percorrer os caminhos da eternidade, procurando o infinito.
- Sabes que isso é impossível, não sabes?
- Sei.
- Porque insistes?
- Não faço a mais pequena ideia.
- Não sei. Temos de pensar já sobre isso?
- Responde-me.
- Não, vamos percorrer os caminhos da eternidade, procurando o infinito.
- Sabes que isso é impossível, não sabes?
- Sei.
- Porque insistes?
- Não faço a mais pequena ideia.
Noites não são dias
Na noite escura os vultos protegem-nos da sombra inexistente.
Na noite escura há momentos de aconchego.
Na noite escura chega a hora da verdade.
Hora da saudade, hora da mentira.
Na noite escura é tempo de amar.
Na noite escura é tempo de semear para nascer, para crescer.
Na noite escura há momentos de aconchego.
Na noite escura chega a hora da verdade.
Hora da saudade, hora da mentira.
Na noite escura é tempo de amar.
Na noite escura é tempo de semear para nascer, para crescer.
Meu tempo
"Minha sorte está lançada
Eu sou, eu sou estrada
Eu sou, eu sou levada
Eu sou, eu sou partida
Contra o grande nada - lá vou eu!
Ao romper da madrugada
O sol no pensamento
E o tempo contra o vento
E a minha voz alçada
Contra o grande nada - lá vou eu!
"Quem vem lá?" Pergunta a solidão"
Sou eu!"
Sou eu que vou porque o meu tempo nasceu
Entre os ecos do infinito
Eu grito, eu mato a solidão
Eu sou meu tempo, eu vou
A ferro e fogo, eu corro
Eu vou, eu canto e grito: amor!
Eu vou, eu vou, eu canto e grito: amor!"
Vinicius de Moraes
Eu sou, eu sou estrada
Eu sou, eu sou levada
Eu sou, eu sou partida
Contra o grande nada - lá vou eu!
Ao romper da madrugada
O sol no pensamento
E o tempo contra o vento
E a minha voz alçada
Contra o grande nada - lá vou eu!
"Quem vem lá?" Pergunta a solidão"
Sou eu!"
Sou eu que vou porque o meu tempo nasceu
Entre os ecos do infinito
Eu grito, eu mato a solidão
Eu sou meu tempo, eu vou
A ferro e fogo, eu corro
Eu vou, eu canto e grito: amor!
Eu vou, eu vou, eu canto e grito: amor!"
Vinicius de Moraes
Ai, quem me dera..
"Ai, quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto simples e sem fim
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim
Ai, quem me dera ver morrrer a fera
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor
Ai, quem me dera uma manhã feliz
Ai, quem me dera uma estação de amor
Ah, se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem casais
Ai, quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim
Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E, finda a espera, ouvir na primavera
Alguém chamar por mim"
Vinicius de Moraes
Retornasse o canto simples e sem fim
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim
Ai, quem me dera ver morrrer a fera
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor
Ai, quem me dera uma manhã feliz
Ai, quem me dera uma estação de amor
Ah, se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem casais
Ai, quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afim
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim
Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E, finda a espera, ouvir na primavera
Alguém chamar por mim"
Vinicius de Moraes
Sunday, June 14, 2009
...
"Escrevi teu nome no vento
Convencido que o escrevia
Na folha dum esquecimento
Que no vento se perdia
Ao vê-lo seguir envolto
Na poeira do caminho
Julguei meu coração solto~
Dos elos do teu carinho
Em vez de ir longe levá-lo
Longe, onde o tempo o desfaça
Fica contente a gritá-lo
Onde passa e a quem passa
Pobre de mim, não pensava
Que tal e qual como eu
O vento se apaixonava
Por esse nome que é teu
E quando o vento se agita
Agita-se o meu tormento
Quero esquecer-te, acredita
Mas cada vez há mais vento"
Jorge Rosa / Raúl Ferrão
Fado Carriche
Convencido que o escrevia
Na folha dum esquecimento
Que no vento se perdia
Ao vê-lo seguir envolto
Na poeira do caminho
Julguei meu coração solto~
Dos elos do teu carinho
Em vez de ir longe levá-lo
Longe, onde o tempo o desfaça
Fica contente a gritá-lo
Onde passa e a quem passa
Pobre de mim, não pensava
Que tal e qual como eu
O vento se apaixonava
Por esse nome que é teu
E quando o vento se agita
Agita-se o meu tormento
Quero esquecer-te, acredita
Mas cada vez há mais vento"
Jorge Rosa / Raúl Ferrão
Fado Carriche
Processo (In)evitável
Primeiro vem o medo, o receio da perda. Todos nós temos medos, todos nós temos receio. Principalmente de perder, porque é sempre muito mais fácil ganhar. O facto é que nem sempre podemos ganhar, ensinam-nos desde pequeninos, nos jogos mais elementares. Nem sempre conseguimos vencer.
Após o medo e o receio da perda vem a angústia. Todos nós temos angústias. Principalmente quando confirmamos a perda, porque é sempre muito mais fácil ganhar. O facto é que só podemos ganhar aquilo que é nosso, ensinam-nos as pessoas, nos momentos mais difíceis. Nem sempre podemos vencer.
Após a angústia vem a serenidade. Todos nós temos serenidade. Principalmente quando aceitamos a perda, porque é sempre muito mais fácil ganhar. O facto é que, por vezes, também é importante perder, ensina-nos a vida, nos momentos mais cruciais. Nem sempre devemos vencer.
Após o medo e o receio da perda vem a angústia. Todos nós temos angústias. Principalmente quando confirmamos a perda, porque é sempre muito mais fácil ganhar. O facto é que só podemos ganhar aquilo que é nosso, ensinam-nos as pessoas, nos momentos mais difíceis. Nem sempre podemos vencer.
Após a angústia vem a serenidade. Todos nós temos serenidade. Principalmente quando aceitamos a perda, porque é sempre muito mais fácil ganhar. O facto é que, por vezes, também é importante perder, ensina-nos a vida, nos momentos mais cruciais. Nem sempre devemos vencer.
Procuras vãs?
Procuramos falar a língua do amor mas, por vezes, estão demasiado habituados a sentir a língua da solidão. Procuramos falar a língua da construção mas, por vezes, estão demasiado embrenhados na língua da destruição. Tentamos dos limões fazer limonadas, mas não há ninguém que as beba, não há ninguém que as valorize o suficiente para que valha a pena continuar a fazê-las.
Procuramos falar a língua da cumplicidade mas, por vezes, têm demasiado medo da intimidade. Procuramos falar a língua da partilha mas, por vezes, têm demasiado medo da entrega. Tentamos dos tijolos edificar um castelo mas não há ninguém que queira lá viver, não há ninguém que o veja como a sua casa, por isso pensamos até que ponto vale a pena continuar a procurá-los.
Procuramos aquilo em que acreditamos mas, por vezes, há demasiadas barreiras; mas, por vezes, não nos deixam encontrar.
Procuramos falar a língua da cumplicidade mas, por vezes, têm demasiado medo da intimidade. Procuramos falar a língua da partilha mas, por vezes, têm demasiado medo da entrega. Tentamos dos tijolos edificar um castelo mas não há ninguém que queira lá viver, não há ninguém que o veja como a sua casa, por isso pensamos até que ponto vale a pena continuar a procurá-los.
Procuramos aquilo em que acreditamos mas, por vezes, há demasiadas barreiras; mas, por vezes, não nos deixam encontrar.
Partidas e Chegadas
- Meu amor, não me deixes ir embora…
- Mas porque haverias de te ir embora? Julgava que estava tudo bem.
- Meu amor, não me deixes ir embora…
- Pára, pára de repetir a mesma frase, sempre a mesma frase. Tu não te vais embora. Está tudo bem, porque irias embora?
- Porque já fui várias vezes sem nunca teres feito nada para que eu voltasse.
- Mas porque haverias de te ir embora? Julgava que estava tudo bem.
- Meu amor, não me deixes ir embora…
- Pára, pára de repetir a mesma frase, sempre a mesma frase. Tu não te vais embora. Está tudo bem, porque irias embora?
- Porque já fui várias vezes sem nunca teres feito nada para que eu voltasse.
Saturday, June 6, 2009
Facil(idades)
É difícil explicarmos à razão que a emoção também está certa. É difícil explicarmos ao amor que o tédio também existe. É difícil explicarmos ao conflito que a resolução está sempre ao virar da esquina. É difícil explicarmos à negação que a aceitação pode ser libertadora. É difícil explicarmos ao pensamento que o sentimento pode ser mais válido.
Diálogo da Semana
- Ele é feliz?, pergunta com um olhar expectante.
- Até ao ponto em que consegue ser feliz, sim - responde-lhe com um olhar enternecedor.
- Até ao ponto em que consegue ser feliz, sim - responde-lhe com um olhar enternecedor.
Tuesday, June 2, 2009
Hansel e Gretel
Após a dor vem a serenidade de quem aceita o sofrimento, vem a calmaria de quem não se perde na transformação. Após a dor vem a verdadeira verdade.
Colocamos pequenas pedrinhas no caminho, quais Hansel e Gretel que não querem esquecer o caminho de volta para casa, se se sentirem perdidos. E, à medida que se colocamos as pedrinhas, compreendemos que o caminho de volta para casa nunca poderá ser o retrocesso, o caminhar para trás, o fazer o caminho inverso à descoberta. E, à medida que construímos o caminho de pedrinhas, aceitamos que o caminho de volta para casa é o caminho de saída da mesma. O sabermos o que somos sem a casa que sempre nos definiu. O sabermos que não precisamos de pedrinhas no caminho para nos mostrarem a forma de regressarmos, porque o segredo não está no regresso mas no avanço, porque a magia não está no retrocesso mas na progressão. E, a determinada altura, deixamos de colocar as pedrinhas no chão. Não queremos voltar para casa, porque a casa está em nós. Não queremos voltar para trás, porque o caminho é para a frente, porque há outras casas para descobrir, outros sítios onde construir. Não queremos voltar para trás porque não precisamos. A casa está em nós, nós estamos em casa.
Após a dor vem a serenidade de quem aceita o sofrimento, vem a calmaria de quem não se perde na transformação. Após a dor vem a verdadeira verdade.
Colocamos pequenas pedrinhas no caminho, quais Hansel e Gretel que não querem esquecer o caminho de volta para casa, se se sentirem perdidos. E, à medida que se colocamos as pedrinhas, compreendemos que o caminho de volta para casa nunca poderá ser o retrocesso, o caminhar para trás, o fazer o caminho inverso à descoberta. E, à medida que construímos o caminho de pedrinhas, aceitamos que o caminho de volta para casa é o caminho de saída da mesma. O sabermos o que somos sem a casa que sempre nos definiu. O sabermos que não precisamos de pedrinhas no caminho para nos mostrarem a forma de regressarmos, porque o segredo não está no regresso mas no avanço, porque a magia não está no retrocesso mas na progressão. E, a determinada altura, deixamos de colocar as pedrinhas no chão. Não queremos voltar para casa, porque a casa está em nós. Não queremos voltar para trás, porque o caminho é para a frente, porque há outras casas para descobrir, outros sítios onde construir. Não queremos voltar para trás porque não precisamos. A casa está em nós, nós estamos em casa.
Após a dor vem a serenidade de quem aceita o sofrimento, vem a calmaria de quem não se perde na transformação. Após a dor vem a verdadeira verdade.
Assim, sim...
É a libertação, a dolorosa libertação. Primeiro, julgamos não ser capazes. Procuramos formas de nos agarrarmos àquilo que conhecemos e controlamos – àquilo que julgamos ser o certo e o correcto. Depois, compreendemos que não há forma de nos agarrarmos a algo inconsistente, a algo que precisa de ser deixado para trás, transformado numa outra coisa que ainda não se sabe qual é. E começa a busca incansável e incontrolável por algo melhor, por algo maior. Nessa busca tropeçamos, magoamo-nos, ferimo-nos, maltratamo-nos e encontramo-nos. Nessa busca confirmamos que é sempre possível percorrer mais, que é sempre possível ir mais longe, seja para onde for, seja quem for que deseje nos acompanhar.
Qualquer caminho é mais saboroso quando o fazemos acompanhados. Tragam as vossas verdades do quão bom é estar só, do quão interessante é a realidade de um só e não a realidade do par, e coloquem-na num qualquer lugar frio da vossa mente, onde ela com certeza se encaixará na perfeição porque, apenas nesse lugar ausente de afecto, de amor e de relação, é que é possível acreditar que sozinhos são melhores.
Qualquer caminho é, então, mais doloroso quando o fazemos sozinhos. Mas se assim tiver de ser, assim o fazemos. Porque apesar de tudo, a loucura está muito mais perto da nossa vida do que aquilo que julgamos, assim como a força e a vitalidade. É nos momentos de maior força – ou, talvez, nos momentos de maior loucura – que sabemos o que queremos, o que precisamos e o que merecemos. Procuramos percorrer esse caminho de descoberta, de transformação e de libertação acompanhados mas, por vezes, nada nos resta a não ser percorrê-lo sozinhos, acreditando – acreditando sempre, porque o segredo está na crença – que na busca veremos que temos companhia e que (quem sabe) nunca estivemos sozinhos.
É a libertação, a dolorosa libertação. Continua a busca incansável e incontrolável por algo melhor, por algo maior. Nessa busca tropeçamos, magoamo-nos, ferimo-nos, maltratamo-nos e encontramo-nos. Nessa busca confirmamos que é sempre possível percorrer mais, que é sempre possível ir mais longe, seja para onde for, seja quem for que deseje nos acompanhar. E após essa busca descobrimos que somos sempre um pouco diferentes daquilo que julgávamos, daquilo que a nossa imagem aparenta; e, após essa busca, confirmamos que é possível ser melhor, que é possível ser maior, sempre e sempre.
Qualquer caminho é mais saboroso quando o fazemos acompanhados. Tragam as vossas verdades do quão bom é estar só, do quão interessante é a realidade de um só e não a realidade do par, e coloquem-na num qualquer lugar frio da vossa mente, onde ela com certeza se encaixará na perfeição porque, apenas nesse lugar ausente de afecto, de amor e de relação, é que é possível acreditar que sozinhos são melhores.
Qualquer caminho é, então, mais doloroso quando o fazemos sozinhos. Mas se assim tiver de ser, assim o fazemos. Porque apesar de tudo, a loucura está muito mais perto da nossa vida do que aquilo que julgamos, assim como a força e a vitalidade. É nos momentos de maior força – ou, talvez, nos momentos de maior loucura – que sabemos o que queremos, o que precisamos e o que merecemos. Procuramos percorrer esse caminho de descoberta, de transformação e de libertação acompanhados mas, por vezes, nada nos resta a não ser percorrê-lo sozinhos, acreditando – acreditando sempre, porque o segredo está na crença – que na busca veremos que temos companhia e que (quem sabe) nunca estivemos sozinhos.
É a libertação, a dolorosa libertação. Continua a busca incansável e incontrolável por algo melhor, por algo maior. Nessa busca tropeçamos, magoamo-nos, ferimo-nos, maltratamo-nos e encontramo-nos. Nessa busca confirmamos que é sempre possível percorrer mais, que é sempre possível ir mais longe, seja para onde for, seja quem for que deseje nos acompanhar. E após essa busca descobrimos que somos sempre um pouco diferentes daquilo que julgávamos, daquilo que a nossa imagem aparenta; e, após essa busca, confirmamos que é possível ser melhor, que é possível ser maior, sempre e sempre.
Liberdade
Escorrem pela face como aventureiras em terras desconhecidas. Não sabem para onde vão mas sabem que querem percorrer o caminho que lhes parece o mais acertado: o caminho para a libertação.
Sabem a mel, sabem a sal, a dor e alegria, a angústia e serenidade. Sabem a tudo aquilo que temos cá dentro, tudo aquilo que adoramos, tudo aquilo que desconhecemos. Sabem a despedida, à dolorosa despedida de quem não sabe para onde vai mas sabe que não pode ficar. E elas não podem ficar, têm de sair, têm de circular. Têm mais força do que nós, são a nossa força mascarada. Mascarada em fragilidade, mascarada em vulnerabilidade.
Porque não há maior força do que saber ser frágil, porque não há maior força do que aceitar a vulnerabilidade que nos é tão característica e tão fundamental. Somos humanos, é verdade. Rimos, choramos, amamos, odiamos – tudo em simultâneo ou, por vezes, tudo em separado. O facto é que sentimos. “Porque só não sente quem não é filho de boa gente”. Por vezes custa, por vezes alegra mas, com toda a certeza, enriquece, engrandece e transforma.
Escorrem pela face como meninas reguilas que só fazem o que desejam. Não sabe de onde vêm mas sabem que querem percorrer o caminho que lhes parece o mais acertado: o caminho para a salvação.
Sabem a mel, sabem a sal, a dor e alegria, a angústia e serenidade. Sabem a tudo aquilo que temos cá dentro, tudo aquilo que adoramos, tudo aquilo que desconhecemos. Sabem a despedida, à dolorosa despedida de quem não sabe para onde vai mas sabe que não pode ficar. E elas não podem ficar, têm de sair, têm de circular. Têm mais força do que nós, são a nossa força mascarada. Mascarada em fragilidade, mascarada em vulnerabilidade.
Porque não há maior força do que saber ser frágil, porque não há maior força do que aceitar a vulnerabilidade que nos é tão característica e tão fundamental. Somos humanos, é verdade. Rimos, choramos, amamos, odiamos – tudo em simultâneo ou, por vezes, tudo em separado. O facto é que sentimos. “Porque só não sente quem não é filho de boa gente”. Por vezes custa, por vezes alegra mas, com toda a certeza, enriquece, engrandece e transforma.
Escorrem pela face como meninas reguilas que só fazem o que desejam. Não sabe de onde vêm mas sabem que querem percorrer o caminho que lhes parece o mais acertado: o caminho para a salvação.
À beira mar
Chega junto ao seu ouvido e diz que a ama. Que a ama com a força de quem sente e com a segurança de quem sabe. Que a ama com a leveza do vento e a inconstância do tempo. Que a ama com a sabedoria de um livro e com a intempestividade do mar.
E ela ouve atentamente.
E ela ouve atentamente.
Tuesday, May 19, 2009
Na palma das mãos
Agarras com as tuas mãos. Peço-te que segures com força, que não deixes cair. Explico-te que, se cair, magoa e dói, fere e maltrata. Tu agarras com a tua força tão característica. Com a força da vida, com a força da alma. Transmites-me protecção e garantes-me segurança. Garantes-me que, enquanto o sentimento for a cor da tua alma e a emoção as nuances do teu coração, que ele está seguro. Confio em ti. Pouco me resta senão confiar em ti. E é bom, e sabe bem, apesar de tudo, apesar de nada.
Saber amar?
"A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angustia do mundo que o reflecte. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o património de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre."
Vinicius de Moraes
Vinicius de Moraes
Dúvida (in)constante
Sabemos que sim mas eu procuro instalar o talvez, apenas porque acho que tem de ser, apenas porque acho que não pode ser de outra forma.
Sabemos que não mas eu procuro instaurar o sim, apenas porque acho que pode ser, apenas porque acho que não será de outra forma.
Sabemos que talvez mas eu procuro fazer reinar o não, apenas porque acho que sim, apenas porque acho que talvez.
Sabemos que não mas eu procuro instaurar o sim, apenas porque acho que pode ser, apenas porque acho que não será de outra forma.
Sabemos que talvez mas eu procuro fazer reinar o não, apenas porque acho que sim, apenas porque acho que talvez.
Lingua(gens)
É difícil, por vezes, falar a língua do amor. Dói, roí, moí, mas não mata. Porque o que tem de ser tem muita força – e há muita força a destilar na linguagem das sensações. Porque é como quem não quer morrer mas procura o limite da morte; como quem não sabe lidar com o sofrimento mas procura conhecê-lo e explorá-lo.
É difícil, por vezes, falar a língua da paixão. Dói, roí, moí mas não mata. Porque o que tem de ser tem muita força – e há muita força encarcerada na linguagem da emoções. Porque é como quem não quer imaginar mas procura fantasiar; como quem não quer especular mas procura o limiar da realidade.
É difícil, por vezes, falar a língua das gentes. Dói, roí, moí, mas não mata. Porque o que tem de ser tem muita força – e há muita força encarcerada na linguagem das almas. Porque é como quem não quer admitir mas procura descobrir; como quem não quer considerar mas procura compreender.
É difícil, por vezes, falar a língua da paixão. Dói, roí, moí mas não mata. Porque o que tem de ser tem muita força – e há muita força encarcerada na linguagem da emoções. Porque é como quem não quer imaginar mas procura fantasiar; como quem não quer especular mas procura o limiar da realidade.
É difícil, por vezes, falar a língua das gentes. Dói, roí, moí, mas não mata. Porque o que tem de ser tem muita força – e há muita força encarcerada na linguagem das almas. Porque é como quem não quer admitir mas procura descobrir; como quem não quer considerar mas procura compreender.
Thursday, May 14, 2009
Nuvens
Salto de uma para outra, como uma criança irrequieta que descobriu, finalmente, o brinquedo dos seus sonhos. Salto de uma para outra como uma criança feliz que encontrou, finalmente, a brincadeira das suas fantasias.
São leves e saltitantes, como se não condicionassem todo o mundo ao seu redor. São doces e divertidas, como se não carregassem em si o peso da decisão do dia e da vida.
Salto de uma para outra e vejo em meu redor, como um pintor que descobre, finalmente, as cores ideais com que pintar, o esplendor do horizonte encontrado. Salto de uma para outra e vejo em meu redor, como um monge que descobre, finalmente, o local de descanso onde ficar, a maravilha da paz desejada.
E eu não quero descer. Sinto-me mais perto do Sol e cada vez mais longe do trivial e do banal viver do dia-a-dia circunstancial. Sinto-me mais perto de mim e cada vez mais longe do suposto e do esperado ser do dia-a-dia funcional.
São leves e saltitantes, como se não condicionassem todo o mundo ao seu redor. São doces e divertidas, como se não carregassem em si o peso da decisão do dia e da vida.
Salto de uma para outra e vejo em meu redor, como um pintor que descobre, finalmente, as cores ideais com que pintar, o esplendor do horizonte encontrado. Salto de uma para outra e vejo em meu redor, como um monge que descobre, finalmente, o local de descanso onde ficar, a maravilha da paz desejada.
E eu não quero descer. Sinto-me mais perto do Sol e cada vez mais longe do trivial e do banal viver do dia-a-dia circunstancial. Sinto-me mais perto de mim e cada vez mais longe do suposto e do esperado ser do dia-a-dia funcional.
Compreensão final
Compreendo agora que o amor não é isto, nem aquilo. É qualquer coisa de intermédio, de indifínivel e indicifrável, entre aquele e o outro, entre a certeza e a dúvida.
Compreendo agora que o amor não é assim, nem assim. É qualquer coisa de intermédio, de inexplicável e irreproduzível, entre a realidade e o sonho, entre o desejo e a crença.
Compreendo agora que o amor é apenas nosso, nunca semelhante ao amor alheio e nunca oposto ao amor do outro. É qualquer coisa de intermédio, de inpensável e irrepreensível, entre o egoísmo e o altruísmo, entre a serenidade e a loucura.
Compreendo agora que o amor é o amor. É qualquer coisa de maravilhoso, de inesquecível e inconcebível, entre o tudo e o nada, entre a vida e a morte.
Compreendo agora que o amor não é assim, nem assim. É qualquer coisa de intermédio, de inexplicável e irreproduzível, entre a realidade e o sonho, entre o desejo e a crença.
Compreendo agora que o amor é apenas nosso, nunca semelhante ao amor alheio e nunca oposto ao amor do outro. É qualquer coisa de intermédio, de inpensável e irrepreensível, entre o egoísmo e o altruísmo, entre a serenidade e a loucura.
Compreendo agora que o amor é o amor. É qualquer coisa de maravilhoso, de inesquecível e inconcebível, entre o tudo e o nada, entre a vida e a morte.
Monday, May 11, 2009
Sabes o que eu (não) julgo?
Sabes o que eu acho, meu anjo?
Que a chuva é doce e o vento quente.
Que as lágrimas são salgadas
como é o sentimento que as acompanha.
Sabes o que eu sinto, meu doce?
Que o Sol é solitário e as nuvens mágicas.
Que os sorrisos são libertadores
como é a emoção que os gera.
Sabes o que eu penso, meu amor?
Que o mar é tenso e a areia incerta.
Que o silêncio é agri-doce
como é a imagem que o consome.
Que a chuva é doce e o vento quente.
Que as lágrimas são salgadas
como é o sentimento que as acompanha.
Sabes o que eu sinto, meu doce?
Que o Sol é solitário e as nuvens mágicas.
Que os sorrisos são libertadores
como é a emoção que os gera.
Sabes o que eu penso, meu amor?
Que o mar é tenso e a areia incerta.
Que o silêncio é agri-doce
como é a imagem que o consome.
Céu(s)
- Vamos à procura do céu?
- Talvez já estejamos a caminho..
- Talvez já lá tenhamos chegado.
- E se já tivéssemos chegado, será que perceberíamos?
- Não sei.
- Secalhar continuaríamos à procura..
- Secalhar o céu não seria suficiente para nós.
- Secalhar o céu somos nós e não vale a pena procurarmos o que já temos.
- Secalhar.
- Talvez já estejamos a caminho..
- Talvez já lá tenhamos chegado.
- E se já tivéssemos chegado, será que perceberíamos?
- Não sei.
- Secalhar continuaríamos à procura..
- Secalhar o céu não seria suficiente para nós.
- Secalhar o céu somos nós e não vale a pena procurarmos o que já temos.
- Secalhar.
Friday, May 8, 2009
Cavalgando pela Vida
Seguras lentamente na minha mão e, calado, dizes-me com o teu olhar para não ter medo. Subo amedrontadamente para junto de ti e, silenciosa, respondo-te com o meu que não tenho. Contigo por perto, o medo vai-se embora. Contigo por perto, a coragem vence o perigo.
O Sol acompanha-nos enquanto caminhamos sem rumo, sem vida e sem memória. E nós seguimos. Seguimos em busca do Limite. Seguimos na tentativa de o atingir. Atingimo-lo, atingimo-nos.
Seguro-me com força ao teu corpo, aos teus braços e ao teu peito e caminhamos, num percurso sem fim, à procura de mais um pedaço de terra, mais um pedaço de céu. Sentes-me segura e avanças. Já não trotamos. Começamos a galopar. Pequenos galopes travados pela vida.
O Sol vai-se escondendo enquanto caminhamos sem destino, sem tempo nem história. E nós pernamecemos. Permanecemos em busca do Horizonte. Permanecemos na tentativa de o ultrapassar. Ultrapassamo-lo, ultrapassamo-nos.
Seguras lentamente na minha mão e, sorrindo, dizes-me com o teu olhar que foi bom. Desço lentamente para o chão e, silenciosa, respondo-te com o meu que sinto o mesmo. Contigo por perto o prazer vem para ficar. Contigo por perto, a alegria vence a dor.
O Sol acompanha-nos enquanto caminhamos sem rumo, sem vida e sem memória. E nós seguimos. Seguimos em busca do Limite. Seguimos na tentativa de o atingir. Atingimo-lo, atingimo-nos.
Seguro-me com força ao teu corpo, aos teus braços e ao teu peito e caminhamos, num percurso sem fim, à procura de mais um pedaço de terra, mais um pedaço de céu. Sentes-me segura e avanças. Já não trotamos. Começamos a galopar. Pequenos galopes travados pela vida.
O Sol vai-se escondendo enquanto caminhamos sem destino, sem tempo nem história. E nós pernamecemos. Permanecemos em busca do Horizonte. Permanecemos na tentativa de o ultrapassar. Ultrapassamo-lo, ultrapassamo-nos.
Seguras lentamente na minha mão e, sorrindo, dizes-me com o teu olhar que foi bom. Desço lentamente para o chão e, silenciosa, respondo-te com o meu que sinto o mesmo. Contigo por perto o prazer vem para ficar. Contigo por perto, a alegria vence a dor.
Cheira a Lisboa
Cheira a terra molhada e sente-se as flores no ar. São dias de primavera desorganizados pela impaciência da chuva. Dias abençoados pela beleza da Natureza.
E nós continuamos o nosso caminho. O nosso caminho desejado, o nosso caminho construído, o nosso caminho amado.
Cheira a desejo e sente-se o amor no ar. São dias de paixão desorientados pela improbabilidade do dia-a-dia. Dias abençoados pela emoção da Vida.
E nós continuamos a nossa rota. A nossa rota sentida, a nossa rota trabalhada, a nossa rota amada.
Cheira a gente e sente-se o sabor da Humanidade. São dias de sensações desorientados pela impertinência dos pensamentos. Dias abençoados pelo esplendor da Mente.
E nós continuamos o nosso caminho. O nosso caminho desejado, o nosso caminho construído, o nosso caminho amado.
Cheira a desejo e sente-se o amor no ar. São dias de paixão desorientados pela improbabilidade do dia-a-dia. Dias abençoados pela emoção da Vida.
E nós continuamos a nossa rota. A nossa rota sentida, a nossa rota trabalhada, a nossa rota amada.
Cheira a gente e sente-se o sabor da Humanidade. São dias de sensações desorientados pela impertinência dos pensamentos. Dias abençoados pelo esplendor da Mente.
Wednesday, April 22, 2009
Paralelos cruzados
Mergulhamos nas palavras e elas aqueçam-nos.
Mergulhamos nos gestos e eles queimam-nos.
"Não, ainda não entendeste o que eu sinto"
Mergulhamos no silêncio e ele magoa-nos.
Mergulhamos no barulho e ele incomoda-nos.
"Não, continuas sem entender o que te digo"
Mergulhamos nas certezas e elas acalmam-nos.
Mergulhamos nas dúvidas e elas enlouquecem-nos.
"Desisto de te tentar mostrar aquilo que não queres ver"
Mergulhamos na solidão e ela consola-nos.
Mergulhamos na multidão e ela irrequieta-nos.
"Fim de conversa"
Mergulhamos nos gestos e eles queimam-nos.
"Não, ainda não entendeste o que eu sinto"
Mergulhamos no silêncio e ele magoa-nos.
Mergulhamos no barulho e ele incomoda-nos.
"Não, continuas sem entender o que te digo"
Mergulhamos nas certezas e elas acalmam-nos.
Mergulhamos nas dúvidas e elas enlouquecem-nos.
"Desisto de te tentar mostrar aquilo que não queres ver"
Mergulhamos na solidão e ela consola-nos.
Mergulhamos na multidão e ela irrequieta-nos.
"Fim de conversa"
Crer
Colocas a tua mão sobre a minha e incentivas-me a escrever. Explico-te que não, que não sei, que não consigo... que estou longe da minha mente e que a minha mente está longe da minha mão. E tu insistes. Insistes que sim, que consigo, que sou capaz, que tudo acontecerá. E eu sem querer vou-me deixando levar - não pela minha crenças, mas pelas tuas; não pela minha mão, mas pela tua.
A pouco e pouco surgem palavras disconexas, desorganizadas e estranhas. Palavras sem sentido escritas por duas mãos, duas mentes, duas ideias. Palavras divididas entre dois universos. A pouco e pouco, surgem frases confusas, descontextualizadas e vagas. Frases sem razão escritas por dois corações, duas perspectivas, duas visões. Frases divididas entre dois planetas.
Continuas com a tua mão sobre a minha e acompanhas agora a minha escrita. Digo-te que sim, que talvez saiba, que talvez consiga... que estou mais próxima da minha mente e que a minha mente está próxima da minha mão. E tu confirmas. Confirmas que sim, que consigo, que sou capaz, que tudo acontecerá. E eu sem perceber já me deixei levar - não pelas tuas crenças, mas pelas minhas; não pela tua mão, mas pela minha.
A pouco e pouco surgem palavras disconexas, desorganizadas e estranhas. Palavras sem sentido escritas por duas mãos, duas mentes, duas ideias. Palavras divididas entre dois universos. A pouco e pouco, surgem frases confusas, descontextualizadas e vagas. Frases sem razão escritas por dois corações, duas perspectivas, duas visões. Frases divididas entre dois planetas.
Continuas com a tua mão sobre a minha e acompanhas agora a minha escrita. Digo-te que sim, que talvez saiba, que talvez consiga... que estou mais próxima da minha mente e que a minha mente está próxima da minha mão. E tu confirmas. Confirmas que sim, que consigo, que sou capaz, que tudo acontecerá. E eu sem perceber já me deixei levar - não pelas tuas crenças, mas pelas minhas; não pela tua mão, mas pela minha.
Georges Moustaki - Le metéque
"Avec ma gueule de métèque
De juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents
Avec mes yeux tout délavés
Qui me donnent un air de rêver
Moi qui ne rêve plus souvent
Avec mes mains de maraudeur
De musicien et de rôdeur
Qui ont pillé tant de jardins
Avec ma bouche qui a bu
Qui a embrassé et mordu
Sans jamais assouvir sa faim
Avec ma gueule de métèque
De juif errant, de pâtre grec
De voleur et de vagabond
Avec ma peau qui s'est frottée
Au soleil de tous les étés
Et tout ce qui portait jupon
Avec mon cœur qui a su faire
Souffrir autant qu'il a souffert
Sans pour cela faire d'histoires
Avec mon âme qui n'a plus
La moindre chance de salut
Pour éviter le purgatoire
Avec ma gueule de métèque
De juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents
Je viendrai ma douce captive
Mon âme sœur, ma source vive
Je viendrai boire tes vingt ans
Et je serai prince de sang
Rêveur ou bien adolescent
Comme il te plaira de choisir
Et nous ferons de chaque jour
Toute une éternité d'amour
Que nous vivrons à en mourir
Et nous ferons de chaque jour
Toute une éternité d'amour
Que nous vivrons à en mourir."
De juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents
Avec mes yeux tout délavés
Qui me donnent un air de rêver
Moi qui ne rêve plus souvent
Avec mes mains de maraudeur
De musicien et de rôdeur
Qui ont pillé tant de jardins
Avec ma bouche qui a bu
Qui a embrassé et mordu
Sans jamais assouvir sa faim
Avec ma gueule de métèque
De juif errant, de pâtre grec
De voleur et de vagabond
Avec ma peau qui s'est frottée
Au soleil de tous les étés
Et tout ce qui portait jupon
Avec mon cœur qui a su faire
Souffrir autant qu'il a souffert
Sans pour cela faire d'histoires
Avec mon âme qui n'a plus
La moindre chance de salut
Pour éviter le purgatoire
Avec ma gueule de métèque
De juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents
Je viendrai ma douce captive
Mon âme sœur, ma source vive
Je viendrai boire tes vingt ans
Et je serai prince de sang
Rêveur ou bien adolescent
Comme il te plaira de choisir
Et nous ferons de chaque jour
Toute une éternité d'amour
Que nous vivrons à en mourir
Et nous ferons de chaque jour
Toute une éternité d'amour
Que nous vivrons à en mourir."
José Régio - Cântico Negro
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"
Tuesday, April 21, 2009
Troca(dilhos)
- Não me apetece falar.
- Mas eu não perguntei nada.
- Mas é só para que saibas que não me apetece falar.
- Tudo bem.
- Mas não queres saber porque não me apetece falar?
- Se perguntasse tu responderias?
- Não, mas..
- Então porque haveria de perguntar?
- Não sei. Também não interessa, não me apetece falar.
- Já disseste isso e eu já respeitei a tua vontade.
- Porquê?
- Porquê o quê?
- Porque respeitaste?
- Queres enlouquecer-me?
- Não, só queria perceber.
- O quê?
- Sei lá.
- Agora não me apetece falar.
- Mas eu não perguntei nada.
- Mas é só para que saibas que não me apetece falar.
- Tudo bem.
- Mas não queres saber porque não me apetece falar?
- Se perguntasse tu responderias?
- Não, mas..
- Então porque haveria de perguntar?
- Não sei. Também não interessa, não me apetece falar.
- Já disseste isso e eu já respeitei a tua vontade.
- Porquê?
- Porquê o quê?
- Porque respeitaste?
- Queres enlouquecer-me?
- Não, só queria perceber.
- O quê?
- Sei lá.
- Agora não me apetece falar.
Tuesday, April 14, 2009
Julgas que sim? Que simplesmente se cala e consente? Que se diz sim sem pensar na possibilidade noutras possibilidades? Julgas que sim? Que simplesmente se ouve e se assimila? Que se compreende sem se pensar na probabilidade de outras probabilidades? Há muito mais nas entrelinhas das palavras caladas, muito mais no silêncio das palavras faladas. Há muito mais no toque escondido do sorriso matreiro, muito mais no corpo perdido do amor encontrado.
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